sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Poema do Dia

            
A Hora do Cansaço

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

- Carlos Drummond de Andrade 

O sufoco da necessidade.


"Oi, quanto tempo? Andei pensando em você esses dias! Estranho? Talvez. Não sei por onde anda, não sei como está, com quem está vivendo ou algo parecido. Só sei que hoje deu vontade de saber de você. Mas já faz tanto tempo, que não sei se ainda tenho esse direito. Se é que tive algum dia. Mas e ai, como você anda? Antes de responder, fiquei pensando se você imagina a mesma coisa de mim - por onde ando, como estou, com quem estou vivendo... Resolvi te contar, senti necessidade, por tudo que sua presença significou pra mim. E agora, tudo que sua ausência significa.
Ainda estou no mesmo lugar. Ás vezes com vontade de fugir, você me conhece, sabe do meu jeito livre de ser. Tenho momentos que preciso ir. Somente ir. Ir pra longe, sair, esfriar a cabeça. Sozinha. Me sinto mais sozinha. Mas normal, faz parte de mim. É próprio minha essa necessidade de ser livre, de ir, de ser sozinha. Meus planos de viajar pelo mundo a fora, conhecer pessoas novas? Não consegui realizar. Por enquanto. Tudo acontece na hora certa e os sonhos, sempre se realizam. Lembro de você me dizendo isso. Quando estava desanimada de viver essa vida. Mas o que você não sabia, que minha verdadeira vontade, era de ir com você, pra qualquer lugar.
E antes que eu me esqueça, estou bem. Na verdade, acho que estou melhor do que antes. Sinto que amadureci. Tenho pensamentos diferentes, penso ainda mais no meu futuro. Estou me conhecendo mais. Isso mesmo, me conhecendo. Acho que estou mais segura. Acho não, tenho certeza do que estou falando. Mais segura, mais confiante. Sou uma nova pessoa. Só que ainda tenho os mesmo costumes, manias e meu jeito estranho de falar. Tudo que você dizia que mais gostava em mim.
Estou vivendo comigo mesma. Já disse. Prefiro ser assim. Você me completava, mas tirava a melhor coisa em mim. Minha liberdade. Minha maior companheira ultimamente. Aprendi a fazer coisas por mim. A ser mais egoísta. Não de um jeito ruim. Só aprendi a ser mais individualista. E sabe, ta dando certo. Aprendi o mais importante, pensando em tudo que vivemos. Podia ter sido diferente. Podia mesmo. Mas tudo acontece do jeito que tem que ser. Aprendi a ser melhor com tudo isso, por mais que não parece. Aprendi também a conviver com tua ausência. Uma das melhores coisas de ficar sozinha, é aprender. Não sinto saudade. Sinto curiosidade de saber de você. Será que você mudou tanto quanto eu?
Quem sabe um dia desses nós não nos reencontramos? Em qualquer bar por ai, ou na viagem ao exterior. A gente nunca prevê o que pode acontecer. E umas das melhores coisas da vida é se surpreender. Espero que esteja feliz por onde anda. Espero que esteja melhor que antes. E esteja satisfeito com quem está. Que você receba todo o amor do mundo. Afinal, o amor é que move tudo. O amor que ainda sinto, ou um dia senti, está aqui guardado. E minha maior necessidade era poder te contar isso."

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Poema do Dia

  
Canção Final 

Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.

Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.

É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.

Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.
                
         - Carlos Drummond de Andrade